Caronte II

(Em memória de Nelson Bailão Oliveira, meu irmão.)

que sabes da vida? 

que sabes da morte? 
a morte é parte da vida 
como a noite é parte do dia?


que sabes da água 
que corre para o mar? 
o mar é mundaréu de água 
vertido dos olhos de amar?

que sabes do barco 
que tem o barqueiro 
preso à vara que empunha 
barco e barqueiro 
na mesma corrente?

que sabes do barqueiro 
que desce dos montes
atravessa os vales
nas noites medonhas 
de tristes insônias
ansiando manhãs
que não voltam jamais?

pobre vareiro... 
sem remo, sem vela 
sem eira, nem beira.

... até que a (re)viu!
fez-se
verso sem rima
cavalo sem crina
na noite estrelada
lançou-se ao largo.

- adeus, Caronte!
e ele 
sorrindo
teceu uma vela 
com olhos de amigo. 
das chamas do peito 
inscreveu numa borda do barco:
- há Deus.

(Na jornada quase infinda por fazer, mil vezes retornará, até se achar na estrela ansiada.)

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