Poema inacabado Em meio a idas e vindas encontro pessoas de tantos ofícios: repentistas, benzedeiras bordadeiras, cozinheiras lavradoras, professoras... Cujas histórias fazem parte do Poema disperso por becos estradas e campos. Tem gente que corre o mundo todo que discorre sobre tudo ... mas não se vê nem se reconhece nas pessoas que tangem a fome clamam ao céu aboiam sonhos bordam as manhãs semeiam tanto quanto o abecê: ao plantar, ao colher e ao fazer o que todos hão de comer. Tem gente que julga conhecer o mundo todo e do mundo todo saber tudo e tudo que sabe saber mais que todo mundo ... mas não (se) vê nem reconhece o saber de... repentistas, vaqueiros, rezadeiras bordadeiras, professoras... Tem gente que se julga maior que a Vida. Não percebe que é simplesmente um...
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Mostrando postagens de julho, 2017
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Buscar buscar se refrescar numa piscina ou simplesmente molhar os pés no capim orvalhado. buscar desbravar o espaço sideral mas primeiro conhecer a si mesmo. buscar escrever um livro não sem antes enviar aquele bilhete (a)guardado. buscar descobrir terras além-mar ou conchas... no terreiro de casa. buscar o clarão do sol sem esquecer a luz da vela na noite trevosa. buscar um puro-sangue alazão ou um cavalinho de talo de carnaúba.
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Barco de papel outra vez menino arisco canta o verso: "navegar é preciso". do raio que risca o céu faz o mastro do seu barco de papel. faz-se ao mar sem estrela-guia. o peito traça a rota. vela ao vento transforma acordes-lamentos num canto de alegria. eis que aporta na porta da casa que um dia também foi sua. (perto da igrejinha onde rezava com fé aos domingos sob a imagem de São José.) ouve um velho pregão: - olha o sorvete! côco, bacuri, cajá: melhor não há! na ruazinha de pedras toma banho de chuva até o último pingo cair. CARATIBUUUMM!!! cai da cama sentindo o gosto de bacuri!
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N'algum lugar n'algum lugar uma ferida lateja sangra incomoda desde a manhã ao anoitecer de nossas vidas. n'algum lugar utopias (des)ilusões florescem crescem murcham ... ir e vir das marés em nossas vidas. n'algum lugar um poema é escrito sem que a maioria dos autores tenham consciência de tal ... quanto mais perceber a beleza existente em toda e qualquer manifestação de vida! n'algum lugar um poema é escrito e reescrito desde a barra do dia ao ocaso de nossas existências. (Quem há de lê-lo?)
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Caronte II (Em memória de Nelson Bailão Oliveira, meu irmão.) que sabes da vida? que sabes da morte? a morte é parte da vida como a noite é parte do dia? que sabes da água que corre para o mar? o mar é mundaréu de água vertido dos olhos de amar? que sabes do barco que tem o barqueiro preso à vara que empunha barco e barqueiro na mesma corrente? que sabes do barqueiro que desce dos montes atravessa os vales nas noites medonhas de tristes insônias ansiando manhãs que não voltam jamais? pobre vareiro... sem remo, sem vela sem eira, nem beira. ... até que a (re)viu! fez-se verso sem rima cavalo sem crina na noite estrelada lançou-se ao largo. - adeus, Caronte! e ele sorrindo teceu uma vela com olhos de amigo. das chamas do peito inscreveu numa borda do barco: -...
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Caronte batista filho Nunca, nunca diga "tarde". Nunca tarde sempre há tempo. Há um barco à tua espera ao apagar da última estrela. Conheço o barco e o barqueiro... Noutro tempo noutra existência fui eu a esculpi-lo era eu a conduzi-lo. Hoje nunca só mesmo sozinho (gota d'água desse rio) vejo passar barco e barqueiro.
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Garrafeiro (Dos ofícios) sei que há violência (tanta!) que dá medo. sei que há mentira (quanta!) que dá desânimo. mas hoje de manhãzinha acordei com um "pregão" que há muito não ouvia. olhei pela janela e vi ... um... garrafeiro?! - "GARRAFEIRO- ÔÔÔ! garrafas velhas por vidas novas! enquanto sua voz se perdia rua abaixo dentro de mim a Esperança renascia. ************* (Conheci um homem que comprava garrafas. Sabia a que "vidas novas" ele se referia: aos filhos miúdos que ele e a esposa cuidavam com desvelo.)
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Zé Quetinha (Dos ofícios) espiando pegadas na várzea soube pr'onde ir atrás de boi manhoso. e num "segue que chega!" - sem pressa de chegar seguiu pela beira do rio. jiquiri e unha-de-gato espetando saudade: - "pai, vou pro sul, atrás de melhor sorte". (por onde andaria o filho mais velho?) nem deu tempo pensar resposta enxugar suor, segurar grito estancar sangue. boca da noite. o boi urrando saltou da mataria. derrubou o cavalo. rasgou o vazio do vaqueiro. longe, longe o piado do caburé o choro do vento nas carnaubeiras. perto, perto, num aboio triste rasga-mortalha se fez ouvir. (os olhos se fechando numa leseira sem fim.) a noite, estremecida, se pintou de vermelho. breve ou longo tempo, nunca soube ao certo quanto ali permaneceu. depois, sacudiu o pó, arrumou o chapéu despiu-se da dor... mas não do gibão! - sua outra pele, d...
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Como ninguém jamais ousou Maria, como tantas do lugar. Maria Pretinha preta como não havia mais por lá. Empregada doméstica de ofício e sina como outras tantas no caminhar. Zé, como tantos do lugar. Zé Preto preto como não havia mais por lá. Tal seu pai e seu avô por ofício, lavrador. Trabalhou "à meia" a existência inteira. Maria Pretinha e Zé Preto as pessoas mais pretas do lugar se olharam se tocaram se amaram como ninguém jamais ousou amar!
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Só de ouvir... (Dos ofícios) domingo, após a missa no caminho de volta pra casa sempre passava pelo meio da feira. quedava um tempinho em volta do vendedor de cordel. adorava poesia... depois, em casa, bordar. mãos ágeis dando vida ao linho: borboletas, flores crianças, bichinhos ... a imaginação colorindo a brancura do tecido. sem se aperceber a cada ponto tecia um verso a cada arremate uma nova poesia! poesia que amava só de ouvir ... porque não lia.
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De dedos mãos e ofício com dedos e mãos bilros e linhas tecias belíssimas rendas ... alheias! tuas as mãos os dedos e os sonhos (muitos!) tecidos nos dias compridos e nas noites insones. bilros linhas e rendas (des)fiadas no tempo a (desa)fiar (n)o tempo nas linhas das mãos (tuas) prematuramente envelhecidas.
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Às vezes... Parnaíba Se quero falar sobre a cidade tenho de falar das ruas da rua das casas da casa. Mas fundamentalmente tenho de falar sobre as pessoas não somente das que têm nome e sobrenome nas ruas: Maria Onça Maria das Cabras Maria Pretinha Antônio Lopes... Se quero falar sobre a cidade preciso tomar banho de chuva de mar de rio... Preciso conhecer a gente do lugar a sapiência de Pacamão a cachaça de Chico Patriço a "cerca reta de pau torto" de D. Maria do Carmo. Se quero falar sobre a cidade preciso colocar cadeiras na calçada, conversar com vizinhos de frente pra rua, à luz dos postes ver crianças, cães e gatos brincando correndo pulando. Porém, hoje é perigoso brincar, correr, pular à luz do dia em plena rua! É perigoso colocar cadeiras nas calçadas, conhecer os sonhos que foram sonhados ... ou sonhar novos velhos sonhos de fraternidade. Se quero falar sobre a cida...
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Minha cidade é feita de tantas casas tantas ruas tantas praças Santo Antônio Antônio Dumont Das Graças (...) Antes de virar cidade sonhos e mais sonhos se encontravam nas esquinas imaginárias Mãos maltratadas deram forma e cor aos sonhos Sangue, suor e ossos incrustado no chão e nas paredes Minha cidade é feita de tanta água tantas igrejas: São José Das Graças Do Rosário... (Tanta fé e mágoa...!)
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Uma casa não é feita só de tijolo pedra argamassa madeira... Antes ser construída alguém sonha com ela. E esse sonho é partilhado com familiares amigos operários que tijolo após tijolo irão erguê-la. Uma rua não é feita só com uma casa. Várias casas e muitos sonhos são necessários para que surja uma rua 7 de Setembro. Minha cidade não é feita só de uma casa só de uma rua ... mesmo que seja Vera Cruz.
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... Aqui, acolá percebo descubro ou redescubro a Beleza numa ou noutra Poesia ou Prosa nascida do mais íntimo de outras pessoas ... igualmente partes do mundo partes de tudo pedacinhos do Todo. É maravilhoso!!! E quando leio tal preciosidade mas principalmente quando releio ouço a música divinamente humana que me comove encanta. ... É como se me incrustasse em cada palavra em cada nota em cada linha e no silêncio que há entre cada uma delas!