Zé Quetinha  (Dos ofícios)



espiando pegadas na várzea soube pr'onde ir

atrás de boi manhoso. 
e num "segue que chega!" - sem pressa de chegar 
seguiu pela beira do rio.


jiquiri e unha-de-gato espetando saudade:
- "pai, vou pro sul, atrás de melhor sorte". 
(por onde andaria o filho mais velho?)

nem deu tempo pensar resposta 
enxugar suor, segurar grito
estancar sangue.

boca da noite. 
o boi urrando saltou da mataria.
derrubou o cavalo. rasgou o vazio do vaqueiro.

longe, longe o piado do caburé
o choro do vento nas carnaubeiras. 
perto, perto, num aboio triste 
rasga-mortalha se fez ouvir. 
(os olhos se fechando numa leseira sem fim.)
a noite, estremecida, se pintou de vermelho.

breve ou longo tempo, nunca soube ao certo 
quanto ali permaneceu. 
depois, sacudiu o pó, arrumou o chapéu 
despiu-se da dor... mas não do gibão!
- sua outra pele, desde menino -
curtida no tanger gado
no aboiar sonhos
daqui pra lá 
de lá pra cá.

a noite, espantada
silenciou grilos e sapos 
ao ver Zé Quetinha cavalgando a lua em pêlo 
arrastando pela várzea o clarão do setestrelo! 

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